sábado, 22 de dezembro de 2018

Uma grande luz brilhou entre nós



A liturgia do 4º domingo do Advento e propriamente a do natal, se voltam sobre o mistério da Encarnação, nos convidando a reviver o mistério de um Deus amor que se aproxima mais de suas criaturas, se fazendo um entre nós e como nós. É interessante ressaltar que Jesus não se encarnou como soberano ou alguém de destaque no meio do seu povo, mas se encarnou e viveu entre os mais simples da sociedade Judaica da Palestina. 

A própria condição humana assumida por Jesus já diz muito sobre Ele, pois o termo humano vem do latim humus: terra. "Trata-se do oposto de tudo aquilo que significa grandeza, poder, honra e importância. Falar da humanidade de Jesus equivale a falar não só de sua condição terrena, mas sobretudo de sua forma ou estilo de vida. Trata-se do extremo oposto de tudo aquilo que significa dominação sobre a terra" (teólogo José Maria Castillo). O que o teólogo deseja mostrar é que a própria condição humana de Jesus já desfaz uma errônea concepção de Deus como um ser distante, vingador que está pronto para agir de acordo com a sua ira e castigar qualquer transgressão que não se enquadre em seus parâmetros.

A Encarnação é um ousado projeto empreendido pela Trindade, que só pode ser compreendido pela ótica do amor, pois é um mistério que escapa à nossa compreensão. O natal é mistério e ação fecunda de Deus no seio da humanidade. Por isso, não pode ser uma festa vivida superficialmente. Natal é a festa da fraternidade, da solidariedade, da percepção da necessidade do outro. Isso foi o que Deus fez por nós. 

Natal é ação de graças, é encontro, é reconhecimento. Por isso, neste natal irmãos, abrace alguém pra valer, não por aparências. Dedique um momento pessoal ou familiar para agradecer o dom de Deus derramado sobre nós. Cuide da família e não alimente antigos rancores, mágoas, lembre-se que o Natal também é perdão, pois se Deus veio até nós, foi porque o amor sobrepassou nossos limitações e pecados.

Faça o natal acontecer através de teus gestos e palavras e, lembre-se que o significado do Natal vai muito além dos engradados de cerveja, vinhos, churrascos ou banquetes. Revista o teu ser de luz e não a tua árvore! Ornamente também o teu caráter, a tua alma. Faça uma faxina e realce a grande mulher, o grande homem e é a grande fé que existe neste/a cristão/a. Existem pessoas que perderam o contato com a própria essência e buscam preencher com adornos e pinduricales desnecessários, fazendo o mesmo com suas relações e com tudo aquilo que se refere a sua existência. Pouco adianta decorar a casa com luzes e pisca-pisca se a luz verdadeira não é acolhida.

O evangelho da noite de natal nos narra que Deus nasceu na simplicidade e assim viveu. Sirva a Cristo nos menores, nos abandonados, nos desgraçados pela sociedade corrompida e encontrarás o menino da manjedoura.

Feliz Natal meus queridos amigos e irmãos!
July Lima

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

E um ano depois de mi vida


Gostaria de compartilhar com vocês um ano de graça que vivi ao longo de 2018. No dia 23 de dezembro de 2017 entreguei minha primeira carta pedindo a dispensa dos votos e desvinculação da congregação a qual pertencia. Muitas coisas sucederam depois deste evento. Poucas pessoas sabem o grande drama que vive ao longo do discernimento e crise vocacional. 

Dei um salto no escuro e decidi recomeçar a minha vida, o que consistiu em em um desafio encantador. Contava somente com a graça de Deus e a coragem de seguir adiante. Me lembro que antes dessa decisão tive muito medo do futuro, muitas dúvidas e inseguranças, pois tinha muito medo de fracassar e me perguntava o que faria? Como seria minha vida... O medo foi enorme, perdi noites de sono e a paz interior. Mas sobretudo, decidi não ser covarde, não me acomodar atrás de uma vida onde "tinha tudo" e não precisava me preocupar com emprego, aluguel, contas a pagar e etc. Lhes digo sinceramente que quando entrei na vida religiosa consagrada, senti verdadeiramente Deus me chamar, e quando saí senti Deus me acompanhar e me cuidar. O processo não foi fácil como alguns acreditam, são dores de parto rsrsrs. Esta foi uma das grandes coisas que vivi este ano: eu me lancei, Deus me cuidou e abriu inúmeras portas! Me cuidou como nunca, me fez crescer, me faz valente e saber-me mais amada a cada instante. 

Quando saí, voltei para casa da minha mãe, fiz novos planos, mas Deus traçou outros. Com muita alegria concluo este ano, sendo muito grata ao Senhor e aos inúmeros instrumentos que Ele pôs no meu caminho.

Decidi compartilhar com vocês esta alegria vivida na carne para animar a todos aqueles que em algum momento o outro passam por dificuldades, dúvidas e medos, assim como eu. Convido-os a não desanimar, mas a rever a própria vida e seus projetos diante de Deus, pois Ele nos surpreende e me surpreendeu. Espero não ser cabeçuda e querer buscar as coisas por mim mesma sem Ele, pois nem sempre é fácil saber e viver segundo os propósitos de Deus.

Pessoas muito, muito próximas e de confiança sabiam realmente o que eu estava interiormente sofrendo, e hoje ao acompanhar minha ação de graça, sabem o que ela significa para mim. Eu não sei do futuro, desejo muito concluir o curso de teologia e iniciar a psicologia para ajudar aqueles que estão no limite da vida, perdendo o sentido da própria existência e ajudá-los a enxergar o belo da vida, mesmo que exista a dor, o cinza e os espinhos, mas sobretudo, com sonhos e projetos, entrego uma vez mais a minha vida a Deus, quero ser disponível e me deixar surpreender. Sou dele, sou muito feliz, plena e amada. Não mudaria nada, mesmo diante da morte, pois vivo com sentido a cada dia, sendo eu mesma e sem medo de lutar por aquilo que acredito. 

Também sou grata aos amigos e familiares que caminharam comigo ao longo do ano. Agradeço aos meus padrinhos por assim dizer, frei Jacir e o Carlos Toty por darem tanta força para seguir a graduação em Teologia (mesmo com os boletos atrasados). Agradeço igualmente aos franciscanos da Província Santa Cruz, pela força nos estudos. Agradeço o carinho de tanta gente, que fez transbordar o meu "tanque de amor". Agradeço a Deus pela coragem e sagacidade da qual me investiu. Agradeço não ter sofrido o desemprego e clamo pelos que sofrem esta dura realidade. Agradeço ao Giovannini e ao André, meus facilitadores e padrinhos de livros rsrsrs. Agradeço muito ao diretório acadêmico Dom Oscar Romero, pela força, carinho e apoio acadêmico. Na verdade são muitos os detalhes que não dão para descrever, pois faltaria papel e cansaria a todos rsrsrs. 

Meu amigo, minha amiga, te encorajo a não desanimar frente aos desafios da vida e a não se contentar com uma vida aparente, ligada no piloto automático e acomodada as circunstâncias. Lute pelos teus sonhos e eles se realizarão com o tempo. Lembre-se que "a sorte segue a coragem e que não nascemos prontos" (Cotella). Se em algum momento sentir que nada tem sentido, é porque você está no sentido errado, pare, ouça a voz do coração, perceba os sinais do teu corpo para saber encontrar o caminho certo. "Espera no Senhor, seja firme, fortaleça teu coração e espere em Deus" (Sl 27). 

Obrigada Senhor pelo que fez em mim e por mim! Deixo esta frase que tem me acompanhado por muitos anos e acalentado nos momentos de angustia: "Nada te perturbe, nada te espante... Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta! Sta. Tereza de Jesus
Feliz ano! 
Com carinho, July Lima

domingo, 16 de dezembro de 2018

O essencial não salta aos olhos de todos


Neste final de semana celebramos o 3° domingo do Advento: domingo da alegria, onde a liturgia nos revela que Deus tem um plano salvífico para toda a humanidade. A alegria proposta não é alegria da euforia momentânea, mas uma alegria que se converte em um modo de vida. A alegria que tanto tem nos convidado o Papa Francisco, que perpassa os seus escritos e homilias. Para elucidar ainda mais esta alegria evangélica, faço presente a figura da irmã Clare, uma jovem irlandesa que deixou tudo, inclusive uma promissora carreira de atriz, para seguir a Cristo dando tudo por ele. Ir. Clare, se destacava por uma alegria sem igual que tocava a todos e orientava para Deus. Infelizmente ela morreu no terremoto de 2016 no Equador. Outra figura conhecida por sua alegria e simplicidade, foi São Felipe Neri que se fazia criança entre os pequeninos e lhes falava de Deus através de seu próprio modo de ser. 
Para aqueles que desejam conhece-la: 


Como veem, a verdadeira alegria provém das coisas simples e de um modo de vida, não do ter, do possuir, de ser o melhor e o maior. Marcelo Jeneci em sua música felicidade, soube captar esta verdade, em um dos versos ele diz: Felicidade é só questão de ser. 

Quantas alegrias, quantos amores podemos está perdendo por achar que a felicidade se resume em ter uma carreira perfeita, um corpo fitness, uma casa invejável, entre outras coisas. Como dizia Saint Exupéry na obra do pequeno príncipe: o essencial é invisível aos olhos! As coisas de Deus também são assim, sendo invisíveis aos olhos da arrogância, do poder e do ódio. 

O evangelho de hoje João 1, 6-8. 19-28, temos uma passagem que está em sintonia com a narrativa de semana passada. Novamente aparece a figura de João Batista como a voz que clama no deserto, mas a centralidade está em Jesus. João Batista é apresentado pela comunidade joanina como aquele que testemunha a luz verdadeira. Desde o princípio do evangelho já aparecem as autoridades judaicas, que se oporão ao ministério de Jesus e estão preocupados com seus esquemas de poder e manter a própria comodidade, o messias prometido faria uma restauração completa em Israel. Por isso, querem saber quem é João e por que faz o que faz. Para alguns certamente ele se enquadrava no papel do messias esperado, pois falava com autoridade e despertava o interesse de muitas pessoas que acreditavam em sua pregação. Os enviados de Jerusalém querem saber a identidade daquele que batiza e convida à conversão. João por sua vez, desconstrói uma imagem que outros fizeram de si: eu não sou! Uma atitude que diz muito sobre seu caráter. Ele se disafirma, o que é ao mesmo tempo diferente de se desvalorizar, pois ele se reconhece como tal, em sua inteireza, mas sabe que não é o messias esperado, que já desponta em Israel.

João se comporta como um verdadeiro enviado de Deus, não pretendendo para si qualquer privilégio.Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 

Jesus é a luz que nasce nas trevas da escuridão que desumaniza o mundo e cada ser humano. Isso deve nos alegrar e gerar em nós esperança frente aos desafios que nos são apresentados e parecem ser maiores que nós. Não desanime, volte a Ele seu coração e sua vida. Ele é aquele que é e faz presente em sua práxis o espírito de Deus e nos liberta das amarras da escravidão da cegueira e da surdez (primeira leitura). 

Semana passada você falava da atitude de gratidão, o cântico de Maria, proposto como salmo na liturgia de hoje, é um grande exemplo de gratidão e reconhecimento das obras de Deus em nossa vida. Faça o seu próprio magnificat e deixe o Emanuel (Deus conosco) habitar em ti. 

Feliz semana! 
July Lima

domingo, 9 de dezembro de 2018

Um novo tempo ou o tempo de sempre?


Um novo tempo ou o tempo de sempre? A escolha é nossa! A abertura sempre vem de Deus e se renova a cada instante, a cada ano e a cada ciclo. Há uma semana atrás entramos no período do advento, alguém notou? Que diferença faz? A Igreja nos propõe um tempo de preparação para algo maior que está por vir. Na vida também seguimos o mesmo esquema: sempre nos preparamos para algo novo, para algo maior que está para acontecer. Os exemplos podem ser das coisas mais notáveis às coisas mais simples: um noivado que prepara para o casamento; uma gravidez que antecipa um nascimento; a organização de uma festa; estudar para uma prova... No entanto o advento faz um convite ainda mais profundo: voltar para nós mesmos, refletir sobre a nossa existência: dom de Deus. 

O Natal não quer ser uma festa do capitalismo, mas a festa da vida, onde rememoramos algo inaudito: Deus que se fez humano  e habitou entre nós. Quem ainda se lembra disso? Nosso advento em lugar de nos preparar para reviver o mistério da Encarnação, se tornou simplesmente, a preparação de grandes banquetes, inúmeras confraternizações, amigo x para lá e pra cá, presentes decorações americanizadas e a crença em um velho gordo e barbudo de vermelho que distribui presentes. Centenas de animais são sacrificados para nos dá um remoto prazer! Celebrar faz parte da vida, eu também amo festas, mas acredito que relativizamos o essencial e demos primazia ao supérfluo. A preocupação se volta sobre as aparências. Tem gente que termina e inicia o ano endividado, por causa de roupas, presentes e luxúria de todo tipo. Onde está o novo? O inaudito? Conheço algumas pessoas que não gostam desse período, e talvez tenham razão, mas por outro lado, estejam completamente erradas, pois não fizeram a experiência de Deus doidinho por nós, doidinho por suas criaturas. Um Deus louco de amor, que foi capaz de se Encarnar e se sacrificar. É certo que até as igrejas se esquecem desta verdade. 

O advento nos proporcionar refletir, planejar a vida que queremos, pois ele antecede o natal e o ano novo cívico. E um novo ano, é algo realmente novo, não repetitivo como acreditavam os gregos "em um eterno retorno", viver assim seria terrível! Minha gente, não é possível um ano novo fazendo coisas velhas: as mesmas reclamações, murmurações, pessimismos, preguiça e atitudes. É tomar a vida nas próprias mãos, em uma atitude construtiva. O professor Mário Sérgio Cortella repete constantemente: a sorte segue a coragem! Então coragem! Adiante! 

Uma outra atitude que nos proporciona o advento é uma grande ação de graças elevada a Deus, por tudo que Ele fez por nós e em nós ao longo do ano. Porém, esta ação de graças, não pode se resumir ao culto institucionalizado, mas em um estilo de vida que transparece em nossas relações, que vão desde o chefe, amigos, filhos, até o cachorro. 

O Evangelho do II domingo do Advento: Lucas 3, 1-6. Nesta narrativa temos o grande anúncio que perpassa o advento: "convertei-vos... endireitai os vossos caminhos para a chegada do Senhor". Este anúncio é posto da boca de João Batista, uma das figuras que fazem conosco o caminho do advento. 

No início da narrativa, Lucas faz a descrição das autoridades do poder romano e judaico da época, aos quais o Reino apresentado por Jesus vai se chocar. João Batista também é apresentado distante desta realidade: ele se situa no deserto, enquanto que as notáveis autoridades reluzem em seus palácios nos grandes centros. 


Uma voz que grita no deserto, pode alguém escutar? O próprio nome deserto já indica um lugar despovoado, isolado. Somente é capaz de ouvir esta voz, àqueles que "descem" ao deserto de sua existência e se deixam interpelar pela Boa Nova de Deus gestada a cada instante. Somente dali saberá reconhecer-se em seus excessos e  dons, só aí poderá se preparar para a chegada de Deus em si, e de modo consciente, pois Deus já nos habita e nos cuida independente de nossas escolhas. 

A missão de João não é conferida por si ou por outra pessoa, mas pelo mesmo Deus que o envia ao batismo de conversão (metanoia), mudança de vida e direção. Aqueles que se deixam conduzir realizam um caminho exodal para a verdadeira liberdade dos filhos de Deus. 

A liturgia nos apresenta um meio de escutar a Palavra de Deus, mas é sumamente necessário deixar-se tocar por ela, ruminá-la e atualizá-la, para não ser cristãos a meias. Esta semana o Papa Francisco pediu que nos questionarmos: somos cristãos do dizer ou do fazer? Construo minha vida sobre a rocha de Deus ou sobre a areia da mundanidade, da vaidade? Sou humilde, procuro sempre caminhar por baixo, sem o orgulho, e assim servir ao Senhor? 

Uma feliz semana a todos, com o desejo de que cada um se volte sobre si e viva segundo o tempo proposto!
July Lima
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sábado, 24 de novembro de 2018

Resgatando o que realmente importa



Com esta a solenidade de Cristo Rei, concluímos o ano litúrgico de 2018. Neste ano celebramos timidamente o ano do laicato, lembrando o papel fundamental dos leigos na Igreja. 

A liturgia deste dia, é um tanto paradoxal, pois a maioria dos cristãos creem em Jesus todo poderoso, cheio de pompas e honrarias, enquanto que o evangelho correspondente a festa, revela um Deus rebaixado de sua condição divina, um Deus que opta pela via da humildade, do despojamento. A este Deus ninguém quer seguir e servir, pois é o Deus que vive em seu próprio ser o flagelo humano do abandono, da dor e da injustiça. 

Deus não deseja ser o soberano das massas, mas íntimo dos corações que a ele se abrem. Parece contraditório falar deste Deus, enquanto movimentos contrários parecem ser mais fortes, defendendo um Deus que mais lhes convém. É preciso sempre recordar e contextualizar a história da nossa Igreja, que oficialmente a partir de 380, passou a ser a religião oficial do Império Romano, que antes a perseguiu. A partir daí, houve a aliança entre o poder religioso com o poder político e, aí surge a questão: como testemunhar um Deus que diverge a essa aliança? Como um Deus que morreu miserável na cruz, como um desgraçado, maldito, poderia justificar sistemas opressores?! Após Constantino, a Igreja foi transformando a compreensão de si mesma e da imagem de Deus. Assim como os bispos e presbíteros, Deus também foi revestido de púrpura e insígnias imperiais. Desde então, fomos catequizados a imagem de um Deus todo poderoso, onipotente... Esta imagem em muito favoreceu o poder e a nobreza, mas o afastou da vida cotidiana dos cristãos. 

Não se esqueçam que o vermelho que cobre nossos altares, é a recordação do sangue derramado de um Deus que se fez carne e habitou entre nós. Os símbolos litúrgicos têm muito valor e nos introduzem na mística do mistério celebrado. Em lugar de cor branca, a liturgia deste final de semana, deveria utilizar a vermelha, pois Jesus nos demonstrou sua realiza através da sua entrega que culminou na cruz. 

Meus queridos amigos e leitores, desde o princípio, nossa fé foi contra corrente, por isso, vos exorto: voltem verdadeiramente ao Senhor, deixem Jesus vos falar, iluminar suas vidas. Não se deixem enganar, pois existem muitas coisas querendo nos tirar do caminho do discipulado. Mesmo na Igreja, temos correntes que atentam contra a nossa fé, seja ela fundamentalista, relativista ou progressista. A verdadeira doutrina sempre nos conduzirá ao evangelho e a práxis cristã a partir dos atos de Jesus. O contrário disso, é um farisaísmo hipócrita, que utiliza da religião para esconder seus verdadeiros interesses. 

Deem mais espaço a Ruah Iahweh. Aquela força criadora que permitiu nossa existência, aquela força que permeou a história da salvação, fazendo possível a encarnação, a própria vida e missão de Jesus e sua ressurreição. Aquele mesmo Espírito que tirou a comunidade de Jerusalém do medo e fechamento que se encontrava. Muitas vezes nossos cultos e liturgias estão vazios desta presença, muitos fiéis vão por tradição ou obrigação, seja aos domingos ou dias santos instituídos pela Igreja. Os presbíteros estão em sua maioria esvaziados de teologia, oferecendo em suas homilias qualquer coisa, celebrando missa apressadamente, sem tempo de acolher e de estar com o povo, seja no dia a dia da paroquia ou no sacramento da reconciliação. Se esquecendo que o povo tem sede de Deus e acabam bebendo de águas equivocadas, superficiais, que não saciam sua sede. Como Deus reinará sim? Qualquer deus não é Deus! Os primeiros cristãos diante da perseguição e morte não deixaram de crer, pois haviam sido tocados por Deus e, assim se assemelha experiência dos cristãos em áreas de riscos e conflitos políticos, como no caso da Igreja na China. Por que não desistiram? Porque encontraram o que realmente importa. E nós, quanto mais longe de Deus estamos, vamos nos enchendo de adornos para esconder o vazio que ameaça.  

Na primeira (Dn 7, 13-14) e segunda (Ap 1, 5-8) leitura, temos dois textos que pertencem ao gênero da apocalíptica. Literatura de resistência que busca animar o povo perseguido. Ambos utilizam uma linguagem simbólica, pois se encontram em tempos de ditadura e não podem falar abertamente, mas por meio de símbolos e mitos, buscam testemunhar a presença de um Deus que não os abandona, seja pela opressão grega (Daniel) ou Romana (Apocalipse). 

O Salmo 92/93, assim como os demais salmos pertencem a séculos antes de Cristo, mas que são relidos a partir da ótica cristã. O salmo de hoje canta: Deus é Rei e se vestiu de majestade. Se nosso rei Jesus, qual é a sua vestidura que deu origem a nossa fé? Volto ao início desta reflexão. Deus encarnado em Jesus, se despojou de sua condição e revestir-se do manto da humildade e, mesmo aí, foi reconhecido como Deus, a exemplo do relato do soldado romano diante da cruz e do bom ladrão. 

A majestade do Deus cristão é inversa, isso nos mostra o evangelho de João 18, 33-37, já comentado acima. Para concluir, destaco a figura de Pilatos, que diante da verdadeira luz que é Jesus, não foi capaz de enxerga-lo e ouvir a sua voz, pois seu coração estava centrado em si mesmo e no poder. Escutamos a voz de Jesus ou nos entretemos com outras vozes? 

Como Igreja iniciaremos uma nova etapa e experiência de um novo nascimento de Cristo e em Cristo. O advento nos vem como um tempo de discernimento para celebrar a chegada do Deus luz, que só pode ser visto pelos que são videntes na fé. 

Abraços a todos e um excelente final de semana!


sábado, 10 de novembro de 2018


Inicio esta reflexão com muito encanto e embebida do Espírito evangélico, pois graças ao meu TCC, estou tendo um minucioso contato com diversas passagens bíblicas e tendo acesso a comentários exegéticos maravilhosos sobre o tema, que são de uma enorme profundidade, lançando-me cada vez cada vez mais naquilo que é o cerne da vida cristã. 

Quanto mais me aproximo das Sagradas Escrituras, mais me apaixono por Deus e seu projeto vivido e anunciado por Jesus. É interessante notar que quanto mais nele mergulho, mais sentido e encanto existencial encontro. Espero que todos vocês possam igualmente ter este encontro com Deus na pessoa de seu Filho. 

Confesso que este encontro me possibilitou vencer barreiras, feridas e medos. Vocês não fazem idéia de como eu era medrosa, insegura, rigorista e boboca (rsrs). Quem me conhece poderá confirmar o que estou dizendo. São João em uma de suas cartas afirma: que onde há temor não há amor, mas onde há amor, não existe o temor. Creio que São João está coberto de razão! Somente o amor verdadeiro pode nos curar e livrar de tais barreiras. Por isso, lhes digo de todo coração: não sejam covardes diante da vida e da busca deste Deus e do conhecimento de si mesmo. Meditem sobre a frase de Agostinho: "Eu me conheça a mim mesmo, e vos conheça Senhor!" Sem autoconhecimento não existe o verdadeiro encontro com Deus. 

Que minha simples reflexão não seja mais uma mensagem entre tantas recebidas, mas que os ajude a colocar-se diante de Deus com sua pequenez e grandeza, sabendo-se muito amado por Ele. Graças a uma inquietante busca de Deus entre erros e acertos, hoje sou uma mulher inteira, feliz, capaz de contemplar a beleza e os detalhes da vida, sabendo sem medo reconhecer que existem desafios, mas sobre tudo, que sou responsável pelas minhas decisões e escolhas. Desculpe-me se falo muito sobre mim e da experiência de Deus, mas quero ser portadora da esperança e, mesmo em tempos de dificuldades, quero anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo, pois já passei muitas coisas que quase me fizeram desistir da vida e de mim mesma, mas graças ao Bom Deus, tive pessoas que souberam me acompanhar no tempo certo. Hoje mais que tudo, desejo a vida e ajudar a outros a não desanimar, mas a descobrir o belo de nossa existência. Sinceramente acredito em Deus me permitiu passar por certas coisas para que eu pudesse ajudar a outros e assim seguirei. Quero ser luz de Cristo, psíquico e espiritualmente. 

Na 1° leitura: 1 Reis 17, 10-16, vemos o continuo cuidado de Deus para com quem se abre a Ele. A pobre viúva foi capaz de oferecer tudo o que tinha a um peregrino desconhecido, mesmo correndo o risco de perecer com seu filho. Assim como a abundância de coração e hospitalidade da viúva, Deus se mostrou generoso e cumpridor de suas promessas: "a vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá até o dia em que o Senhor enviar chuva sobre a face da terra". 

O Salmo 145/146, parece ecoar a voz da pobre viúva de Sarepta, que se viu diante da fome e da miséria, mas também diante da Graça de Deus: "bendize ó minha alma ao Senhor..." Unamos nossas vozes a do salmista e cantemos a fidelidade, a justiça de Deus e seus cuidados, que atende a cada um conforme suas necessidades. 

A 2° leitura da carta aos Hebreus 9, 24-28, nos lembra que Jesus entregou sua vida para a salvação de todos. Peçamos a Ele que nos livre do pecado da avareza, da luxúria, da indiferença e da soberba, para saber partilhar nossos dons com os menos favorecidos e reconhecer que tudo nos vem de Deus. 

O evangelho de Marcos 12, 38-44, nos coloca diante de Jesus que transmite os seus ensinamentos as multidões. Ele como verdadeiro mestre, alerta o povo sobre os falsos mestres que utilizam da religião em benefício próprio. Infelizmente em nossas igrejas estão cheias de cristãos assim, sejam eles da hierarquia ou não, homens e mulheres que abusam da ingenuidade e do medo de muitos. É preciso voltar ao Jesus do Evangelho, que chegou ao coração de multidões e não um Jesus moralista, vingador e monarca. Estas são visões posteriores, especialmente na virada constantiniana e que se consolidou na idade média. Essas imagens reforçavam a aliança da Igreja com a monarquia e o poder, transformando violentamente a compreensão da Igreja sobre si mesma e dos cristãos. Não se esqueçam que a Igreja nasceu a margem do Judaísmo e do império romano, como protesto a todo o sistema opressivo existente. Nascemos como uma Igreja duramente perseguida por Roma, até que se casou com ela (depois já conhecemos a historia). 

O segundo momento do evangelho de hoje, é uma “análise” de Jesus diante do templo. Ele observava como as pessoas depositavam generosamente suas doações no cofre do templo. Dentre as várias pessoas que depositavam, ele destacou uma simples mulher, viúva que depositou duas simples moedas (certamente tudo aquilo que tinha para viver). Em nossas comunidades existem muitas mulheres como esta, que doam generosamente o pouco que possuem. Além do mais, prestam seu serviço à comunidade, com a mesma dignidade que os sacerdotes celebram a Eucaristia. Assim como aquela pobre viúva que depositou tudo que tinha, essas grandes mulheres em nossas comunidades, passam desapercebidas diante da multidão dos fiéis. Mas Jesus é aquele que sabe contemplar minuciosamente os detalhes que realmente importam e, daí tirava os seus ensinamentos. Onde estão postos nossos olhos? Com que intenção eu faço o que faço? Peçamos ao Senhor Deus da vida que perscrute o nosso coração, nos ajude a ser pessoas mais abertas e mais contemplativos para saber apreciar o que realmente importa nessa vida. Que sejamos menos autossuficientes para nos abrir ao mistério de Deus, como a viúva de Sarepta e nos ajude a reconhecer que todo dom vem de Deus e que não podemos apropriar-nos deles egoisticamente. 

Uma excelente semana, iluminada 
pela luz do Deus verdadeiro!

sábado, 27 de outubro de 2018

Ver para crer ou crer para ver?


Celebramos o 30º domingo do tempo comum, onde a liturgia nos apresenta como luz e guia diante de uma realidade de incertezas. 


Na 1º leitura do profeta Jeremias 31,7-9, a comunidade de Israel está vivendo o exílio da Babilônia, onde o povo está dizimado, disperso e dividido. O profeta anima a comunidade a não perder a fé e a esperança, mas a crer em Deus e em seu plano salvador, na certeza de que o exílio chegará ao seu fim e o povo se reunirá novamente. Alguns membros haviam sido deportados a Babilônia, em sua maioria, a elite de Israel e a corte sacerdotal. Enquanto que outros sofriam o exílio na própria terra: o resto de Israel, vendo a cidade e todas as suas referências destruídas. 

O profeta Jeremias nos mostra que mesmo em tempo de crise, não podemos perder as esperanças e a nossa consciência como povo. Em tempos de crise, não podemos nos fechar ao diálogo, este é um dos piores caminhos, pois um povo dividido, é um povo fraco, é um povo fácil de manipular e roubar suas esperanças. Domingo temos uma importante decisão, infelizmente os candidatos se encontram em lados extremistas, polarizantes. A questão já ultrapassou o campo da política, que visa o bem comum, ao campo do subjetivismo narcísico, egocêntrico, que exclui completamente o outro em detrimento de si mesmo e de "seus valores". Involuntariamente me vem a pergunta: que valores são esses? Em nome de que deus falam? Certamente não são porta-vozes do Deus verdadeiro, que tem seu centro na vida e no seu direito. 

Nestes tempos sombrios suplico a vocês queridos irmãos, que acima de nossas crenças e ideologias: "que a dor não nos seja indiferente... que injustiça não nos seja indiferente... que a guerra não nos seja indiferente, pois é um monstro grande que pisa forte toda pobre inocência dessa gente... eu só peço a Deus, por mim e por vós, que a mentira não nos seja indiferente, e se um só traidor tem a mais poder que um povo, que este povo não esqueça facilmente... eu só peço a Deus que o futuro não nos seja indiferente, sem ter que fugir pra viver uma cultura diferente..." Estas sábias palavras são da cantora argentina Mercedes Sosa, inspirada em tempos de ditadura e opressão (o link da musica eu só peço a Deus: https://www.youtube.com/watch?v=6_VxXExMdMM

O centro de sua canção é a não-indiferença. Este também é o centro da mensagem de Jesus. Na passagem deste final de semana, temos um claro exemplo disso: Marcos 10 46-52, onde Jesus e o cego Bartimeu se encontram. Uma das minhas passagens favoritas e mais belas das Sagradas Escrituras. Bartimeu que vivia à margem da sociedade, reconheceu em Jesus a salvação de Deus. 

Jesus se encontrava a caminho com seus discípulos, seguidos por uma grande multidão que se somava a caminhada. Recordemos que nas beiras das estradas e nos caminhos, viviam inúmeros mendigos e pessoas com todo tipo de enfermidade, na tentativa de ganhar o próprio sustento, entre eles encontramos o simpático Bartimeu, homem de muita fé que no encontro com Jesus dá um passo de liberdade e salvação. 

Ao reconhecer a presença de Jesus ele sem medo exclama: Jesus, Filho de Davi; tem compaixão de mim! Observe que a multidão que seguia a Jesus ainda não havia aderido ao seu projeto, mas o seguia por modismo, pois diante daquele homem que clamava, se revelaram como vozes opressoras, impedindo-o de falar e de buscar a Jesus. Na vida precisamos todos os dias ser como Bartimeu, insistir uma e outra vez com mais força, até que alcancemos o nosso objetivo. Somente quando Jesus o percebe que lhe dão voz e vez, sendo capazes inclusive de animá-lo: coragem, levanta-te, Jesus te chama. Neste momento o cego dá um salto da sua condição de marginalizado e é colocado ao centro. 

Vejo neste momento uma explosão de alegria invadindo Bartimeu, que mesmo sem uma visão exterior, é capaz de vê Jesus, de um modo que aquela multidão não o havia visto. A sua fé foi o critério de salvação, que lhe permitiu recuperar a visão, assim como seu lugar na sociedade. Saiu do caminho e se pôs a caminho com Jesus e os seus, em um autêntico seguimento.

Feliz semana, muito axé e muita luz!

1º Domingo da quaresma 2020